O tratamento do câncer de mama começa quase sempre pela cirurgia, seja ela completa (mastectomia) ou parcial (quadrantectomia), podendo haver necessidade de complementar com radioterapia e/ou quimioterapia. Nesse momento é frequente seu oncologista solicitar exames cardiológicos, e até a opinião do cardiologista. Por quê? Algumas substâncias usadas para o tratamento do câncer, especialmente o de mama, podem provocar um efeito colateral determinado como CARDIOTOXICIDADE. Esse efeito muda de acordo com a substância utilizada, e pode corresponder desde alterações imperceptíveis, até quadros graves, e felizmente raros, de insuficiência cardíaca. As principais substâncias associadas a cardiotoxicidade são as antraciclinas e o Trastuzumabe, frequentemente utilizados para o câncer de mama. A ocorrência de cardiotoxicidade é variável e encontra-se associada a alguns fatores predisponentes, como doença cardíaca prévia, idade e quantidade de substância utilizada. Muitas vezes se faz necessário o acompanhamento cardiológico durante o tratamento com antraciclinas, pois a ocorrência de cardiotoxicidade pode acontecer em qualquer fase, inclusive mesmo após o final do tratamento. A realização de exames periódicos, assim como a avaliação clínica, auxilia o cardiologista na condução desses pacientes, evitando o desenvolvimento de graves consequências, e tratando adequadamente quando necessário. A suspensão do tratamento quimioterápico, ou sua contraindicação, é incomum, estando reservado para casos bem específicos de insuficiência cardíaca sintomática. O principal exame para detecção e acompanhamento do paciente em uso de antraciclina é o ECOCARDIOGRAMA, uma ultrassonografia do coração que permite avaliar o funcionamento e a estrutura do orgão. O acompanhamento médico constante permite detectar pequenas variações ou alterações da função cardíaca, evitando assim um conseqüências mais grave. Outros exames, conhecidos como BIOMARCADORES, estão sendo utilizados para efetuar esse monitoramento. São exames de sangue que detectam mínimas agressões ao músculo cardíaco e alterações iniciais da sua função. A dosagem de troponina e BNP (peptídeo natriurético cerebral) são as mais estudadas. Para os casos em que o tratamento com antraciclinas representa uma alternativa fundamental, e o paciente apresenta elevado risco de cardiotoxicidade, ou necessidade de uso doses elevadas, existe a alternativa de usar uma medicação com efeito protetor conhecido como Dexrazoxano. Sua indicação é limitada aos casos bem específicos, já que seu efeito protetor é restrito ao uso de doses elevadas de antraciclinas, ou grupos de risco maiores. Outras medicações já foram estudadas, e outras mais estão sendo testadas para impedir ou reduzir a cardiotoxicidade. Medicações específicas para o tratamento do coração, como beta-bloqueadores, por exemplo, são as mais promissoras, porém ainda não temos estudos científicos que comprovem essa eficácia. É muito importante que o paciente com câncer de mama tenha um oncologista de um lado, e um cardiologista do outro. A discussão e o acompanhamento conjunto permite maior segurança do tratamento, sem redução de sua eficácia, levando a uma abordagem precoce, consistente e preventiva da cardiotoxicidade. Portanto, não se assuste quando seu oncologista quiser saber sobre seu coração. A prevenção ainda é o melhor remédio.
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