Fórmulas...Cuidado!
Abril 2010
Fórmulas... Cuidado!
Roque Andrade*
Antigamente, antes do formidável desenvolvimento experimentado no pós-guerra pela indústria químico-farmacêutica, receitava-se por fórmulas. E as “mezinhas” eram aviadas pelos farmacêuticos e boticários com admirável presteza. Comentam gerações anteriores, que o Professor Fernando São Paulo ensinava com maestria a arte de formular, havendo inclusive a meritória preocupação com a “prescrição para ricos” e a “prescrição para pobres”, sem perda da eficácia terapêutica dos produtos receitados. As gerações de médicos mais novos não passaram da celebérrima formulação da pomada de Millian, do triunvirato antifúngico iodo metalóide – ácido salicílico – ácido benzóico, da solução violeta de genciana e do inesquecível tête-a-tête contra ptiríase versicolor, loção A e loção B, ácido clorídico a 3% e hipossulfito de sódio a 30%, ensinadas pela equipe de Dermatologia brilhantemente comandada pelo Professor Newton Guimarães na Faculdade de Medicina da Bahia. Ah!, havia também, e ainda em uso, a solução de podofilina, inimiga cruel do Condiloma acuminatum.
Os médicos diplomados após a década de sessenta foram aquinhoadas com o espetacular crescimento da disponibilidade de produtos embalados, de marca, antibióticos, diuréticos, hipotensores, hormônios, antiinflamatórios, fungicidas, ansiolíticos, neurolépticos, psicotrópicos e outros tantos, de sorte que a arte de formular praticamente se perdeu, relegada quase a umas poucas fórmulas para uso tópico.
Eis que, de uns tempos a esta parte, refloresce a prática da formulação, ungida agora pelo formidável lobby das “farmácias de manipulação”, braços dados a equívocos conceitos neo-terapêuticos, estribados em propósitos vulneráveis a uma análise científica mais apurada, ou mesmo a um sentido médico-profissional sensato e prudente.
Quando se acondiciona em uma cápsula vários medicamentes, individualmente liberados para uso médico, porém de efeitos antagônicos, uns, e cumulativos, outros, objetivando por exemplo a falácia da silhueta corporal em moda, está-se realmente mercando fantasia a custo de segurança, “cutucando o cão com vara curta” na estreiteza dos limites terapêuticos de certas drogas e suas combinações.
Clortalidona, alprazolan, alcachofra, fenproporex, mazindol, dietilpropiona, cloreto de potássio, rhamus, fenolftaleina, tiratricol e propanolol – um dos monstrengos a que a incúria quer dar a feição de remédio, entocando tudo em uma cápsula “maravilhosa”, vendida a mais de cem reais por receita, capaz de emagrecer as gordinhas, mas também muito propícia a arritmias cardíacas fatais. Existem algumas variações dessa trágica comédia, engendrada por gente que não estudou, ou não aprendeu, terapêutica.
O racional de qualquer tratamento é que suas eventuais colateralidades estejam muito aquém dos potenciais benefícios. Uma formulação como esta, e outras que em muito dela se aproximam, todas fluentes entre nós, e com propósitos diversos, são a quinta essência da ignorância, ou da má fé, em terapêutica clínica. É um escândalo, frente ao qual os profissionais bem intencionados não se podem calar, assim como as Associações e Conselhos veladores do correto exercício da Medicina e da Farmácia.
Diclofenaco, pirazolona, lorazepan, fluoxetina, prednisona, hidroclorotiazida, paracetamol e ranitidina – eis aí outra “preciosidade” corrente entre nós, para, diz-se, tratar diversas formas de “artrite”. Talvez sirva para o “reumatismo mental” de quem a prescreveu e de quem a aviou. Isto mesmo, porque a responsabilidade criminal por uma irresponsabilidade deste tamanho, capaz de misturar no mesmo cadinho imperícia, negligência e incompetência, deve ser igualmente repartida entre “terapeutas” e “farmacêuticos”, ambos supostamente sabedores dos malefícios de tão esdrúxulas combinações – se não sabem, enganaram os bancos da escola, assim como continuam, tragicamente, ludibriando seus incautos fregueses.
“Primum non nocere” – primeiro não ferir, não prejudicar – eis a máxima orientadora da atividade médica. Pode um médico, que estudou farmacologia, fisiologia, terapêutica, dietética, psicologia, deixar-se levar pela falácia de uma pílula onde a poli-farmácia irresponsável é a essência do pseudo-sucesso? Será isto ignorância, analfabetismo hipocrático? Ou será a volúpia dos honorários fartos, em descompasso com a ética no exercício da Medicina?
É proibido apoderar-se da inocência e das fantasias alheias para delas fazer fortuna. É ignomínia pretender justificar-se com argumentos polichinelos que se acoitam nas “baixas doses” dos componentes de uma fórmula maléfica. É sujeira acenar com bons resultados, quando não se tem um follow-up adequado, ao longo do tempo, ou pela vida afora. É calhordice saber das tempestades e continuar semeando-as, ao abrigo da impunidade.
Um frasco destas cápsulas custa mais de cem reais; muito dinheiro para tamanha porcaria. Têm que ser caras, o preço alto incrementa o “mistério” que as cercam, a fisionomia de “poção miraculosa” com que as apresentam às incautas esperanças dos pacientes.
* Oncologista Clínico
Ex-Presidente da Associação Bahiana de Medicina
Diretor Técnico: ONCO – Soc. de Oncologia da Bahia