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Médicos debatem se mostrar emoções diante do paciente pode piorar as coisas
Outubro 2008

Uma jovem médica sentou-se com uma paciente terminal com câncer pulmonar e seu marido para discutir o triste prognóstico da mulher. A paciente começou a chorar. E a médica, também. A cena foi, sem dúvida, comovente. Mas será que os médicos devem demonstrar tanta emoção na frente do paciente? Por anos, as faculdades de medicina e os programas de residência médica evitaram intencionalmente o tema “emoções”. Os médicos aprendiam detalhes sobre o funcionamento do câncer e outras doenças graves. Mas quando chegava a hora de revelar diagnósticos cruéis, não tinham a quem recorrer. Hoje em dia, todas as faculdades de medicina têm algum tipo de instrução sobre a relação médico-paciente e como comunicar más notícias. Mas saber como responder a uma onda pessoal de estresse ou tristeza continua sendo um grande desafio. Pode chorar? E abraçar um paciente que começa a chorar? Cautela Um médico cauteloso com emoções excessivas é Hiram S. Cody III, diretor interino da assistência a pacientes com câncer de mama do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. Mesmo enfatizando a necessidade de os médicos entenderem, confortarem e se colocarem no lugar de seus pacientes, Cody afirma que seu trabalho “não envolve ser emotivo e/ou chorar junto com eles”. Há duas razões para essa opinião, como Cody diz a médicos mais jovens. Emoção em excesso não é terapêutico para o paciente e ainda pode causar “esgotamento emocional” no médico. Essa visão é compartilhada por muitos outros médicos, mas alguns novos dados sugerem que chorar no ambiente hospitalar é comum entre médicos jovens. Em reunião recente da Society of General Internal Medicine, Anthony D. Sung, da Harvard Medical School e seus colegas informaram que 69% dos estudantes de medicina e 74% dos médicos residentes afirmaram já ter chorado pelo menos uma vez. Como era de se esperar, o número de mulheres que choraram é mais que o dobro em relação aos homens. Em alguns casos, as emoções simplesmente fluem. Por exemplo, em um documentário da PBS de 1998, chamado “Can We Make a Better Doctor?”, uma estudante de medicina de Harvard, Jane Liebschutz, vê seu paciente morrer inesperadamente durante uma cirurgia de ponte de safena. De repente, ela desata a chorar e se afasta de seus colegas até que o cirurgião-chefe, que havia testemunhado o ocorrido, convence-a de que sua reação foi natural. De propósito Outros médicos se colocam deliberadamente em situações emocionais. May Hua, anestesiologista residente do Columbia University Medical Center, recentemente me contou que, durante sua residência, sua supervisora, Benita Burke, abria mão do almoço para passar mais tempo com seus pacientes com câncer. Elas chamavam esse momento de “sessões de saúde mental”, durante as quais elas podiam falar de temas que não eram somente sobre medicina. Muitas vezes, Burke acabava em lágrimas ou dando um longo abraço no paciente. “Acho que os pacientes adoram Benita”, disse Hua, “tanto quanto médica quanto como amiga”. No entanto, mesmo admirando sua colega, Hua percebeu que esse tipo de emoção pública não era para ela. “Eu sabia que não podia fazer aquilo, porque preciso ter certo nível de distanciamento dessas pessoas.” Compreendi exatamente o que Hua quis dizer. Seja por causa da minha personalidade ou por ser homem, eu também nunca havia chorado na frente de um paciente. Burke acredita que seu choro resulta do seu “grande envolvimento” com seus casos médicos, que a faz “levar tudo para o lado emocional”. No caso daquela paciente com câncer pulmonar, Burke foi a primeira médica a informá-la de que tratamentos mais agressivos dificilmente ajudariam. Em outras palavras, a paciente estava morrendo. Burke disse perceber que esse nível de envolvimento era incomum, mas acredita que não poderia ser outro tipo de médica. “Sempre fui uma pessoa bastante emotiva”, ela disse. Apelo O estudo de Sung termina com um apelo para que os médicos mais experientes reconheçam e discutam abertamente a incidência freqüente de casos de choro entre os estudantes mais jovens de medicina. Apesar de os profissionais de saúde – não só médicos, mas também enfermeiras e assistentes sociais – debaterem entre si se é apropriado demonstrar reações emocionais, o que provavelmente mais importa é o que os pacientes pensam. Assim como médicos diferentes reagem de formas diferentes a situações tristes, isso também acontece com pacientes e suas famílias. Enquanto alguns valorizam contato físico e lágrimas, outros vêem tais demonstrações como muito “melosas”. Pacientes com câncer se deparam com essas situações mais que outros. Sharon Rapoport, de Roanoke, paciente que sobreviveu ao câncer de mama, disse que admira profundamente médicos como Cody, que podem parecer reservados, mas transmitem sua preocupação através de atitudes. Mas Rapoport também disse que valoriza ainda mais os médicos que se sentem confortáveis com demonstrações emocionais explícitas. “Se isso quer dizer lágrimas”, diz ela, “que venham as lágrimas”.

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